The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Estava na dúvida se conseguiria ou não, mas resolveu arriscar um palpite. E como previra, os feitiços protetores que zelavam o Forte Danúbio caíram juntamente com aquele que os mantinha... uma compressão dolorosa fez encolher seu coração. 

Lavoisier olhou ao redor daquele imenso salão de refeição... agora apenas um salão desolado, de mesas e cadeiras silenciosas. Se as coisas não tivessem mudado, hoje, neste último dia do ano, aquele salão estaria alegre e fartamente adornado, decorado especialmente para o Reveillon. Mas agora, apenas o vazio e silêncio. Tudo parecia ter perdido a vida juntamente com Dominique Hanon... e a culpa era dele: Lavoisier! 

Resignou-se e suspirou profundamente, mirando o chão. Agora tudo aquilo é passado e águas passadas não movem moinhos. Não havia mais o que ser feito. Lamentar-se era perda de tempo. Sentir saudades era profunda estupidez. 

Mas já que ali estava, nada lhe impedia visitar o lugar que tanto lhe confortou, e o único lugar que chamou verdadeiramente de lar. Somente agora, que havia perdido, é que se dava conta de tal dádiva. Mais uma vez: passado! O que não o impedia de andar pelo Forte e recordar os anos que ali vivera. 

Em passos rápidos e decididos, Lavoisier avançou para a saída do salão rumo ao grande corredor que dava entrada para os demais recintos. Desceria para as câmaras subterrâneas, rever sua antiga morada e local de trabalho. A essa altura, não se lembrava de Julienne, tão absorto estava pela atmosfera do Forte Danúbio abandonado, e as lembranças que se acendiam a cada canto que
passava. 

Como é engraçada essa noção de tempo, que tanto pode avançar quanto retroceder, independente do tempo marcado pelo relógio ou calendário... a noção de tempo só tem a ver com os sentimentos de cada um, das perspectivas e importâncias que fatos, pessoas, lugares têm para si. E, para Lavoisier, é como se já houvesse se passado décadas a última vez em que pisou naquelas pedras polidas do chão. 

Quanto à morte de Hanon... parecia ainda sentir o formigamento em sua mão quando lançou o feitiço mortal contra seu antigo mentor e único amigo verdadeiro. 

Logo chegou às escadarias que levavam aos subterrâneos. Desceu em questão de instantes e rápido alcançou a entrada de sua sala particular. Queria rever seu antigo aposento, o único lugar em que já pode dormir em paz e sem sobressaltos. Sentia-se muito exausto. Abriu a porta, encontrando a sala que fazia de escritório. 

Tudo parecia impecavelmente alinhado, como havia deixado antes de cometer o pior ato de sua vida. Repassou os olhos, detendo-se em todos pormenores, sentindo uma saudade idiota de tudo aquilo. 

Avançou para a porta dos fundos, que acessava seu aposento. A cada passo, sentia-se mais exausto. Todas aquelas lembranças amargas, de um passado que jamais voltará, exaurindo suas últimas forças. 

Ao abrir a porta, levou ainda algum tempo para que seus olhos se acostumassem à penumbra densa que sempre fez parte do seu dormitório. A decoração escura e sisuda contribuía para aquele ambiente sombrio, mas para ele era muito acolhedor. Olhou tudo em volta e viu, com satisfação, que tudo continuava como antes, tudo em seus devidos lugares. A cama posta, bem arrumada, com o dossel em veludo negro caindo em curva e terminando preso num cordão aos postes os livros empilhados sobre o criadomudo; as cortinas escuras em frente às pequenas janelas retangulares que ficavam rente ao teto, impedindo que a pouca claridade entrasse; ao fundo, um armário embutido que ia de uma ponta à outra da parede, e uma das portas que dava acesso ao quarto de banho. 

Estava sujo. Não apenas de corpo, principalmente de alma. Em seu corpo e vestes, havia ainda vestígios do ataque que participou 

naquela mesma noite, há apenas algumas horas atrás. Mas, agora, era como se tivesse sido há muito e muito tempo. Sua alma só poderia ser lavada com expiação, talvez fossem necessárias dez reencarnações para atingir a redenção dos crimes que cometeu nesta vida! Mas de seu corpo, naquele momento, ainda podia se expurgar das provas do mal que cometera. 

Usou Magia para despir-se. Postou-se sob a ducha que foi acionada também por Magia. A água quente caia em abundância e, como se tentasse se purificar, deixou que escorresse longo tempo por sobre sua cabeça e ombros, e foi então que percebeu o quanto seus músculos estavam doloridos e todo o seu corpo estava frio como gelo. 

Deu-se por satisfeito pelo banho quando percebeu que quase dormira em pé. Com o uso de Magia, encerrou a ducha, secou-se e conjurou uma camisa branca de mangas longas e uma calça preta, ambas peças bastante folgadas e confortáveis. Não lhe interessava o dia de amanhã, se seria capturado pela Força Revolucionária ou mesmo se morreria. 

Tudo que desejava, naquele momento, era resgatar aquela pequena centelha de seu passado, tão distante e tão recente ao mesmo tempo. Desejava o sono dos justos que há muito já não tinha. 

Embora soubesse não merecer um instante sequer de paz, pedia à Deusa que um pouco, ao menos, lhe fosse concedido nesta noite que encerrava tal ano fatídico. 

Logo ao sair do banheiro, encontrou Julienne parada em pé diante da porta do quarto. Lavoisier sobressaltou-se de tal forma que seu sono desapareceu no mesmo instante, elevando seu Bastão Mágico à altura de seus olhos, em defensiva. Julienne parecia impaciente. 

— Ah, não, Mestre... novamente isso não, ok? Lavoisier, aborrecido, baixa sua guarda, soltando um muxoxo. 

— Ah, não, novamente não, digo eu, senhorita! – Lavoisier caminhou até a Bruxa, parando muito próximo a ela. Julienne sentiu-se desconfortável, mas não deixou que transparecesse. — A senhorita não deveria entrar em quartos alheios desta forma sem ser convidada... o que poderia equivaler a um convite... ainda mais depois que me revelou esta noite.

Continua... 

Se quiser adquirir o Romance em formato de livro, poderá fazê-lo através destes links:

Clube de Autores - livro em formato impresso.
Amazon Kindle Store - livro em formato digital.
Donativo - Se preferir apenas fazer uma colaboração, pode fazer seu donativo de qualquer valor através do PagSeguro da Uol.

Grata!

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Santa Tranqueira Magazine