The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Lavoisier, que já havia afrouxado sua mão da garganta de Julienne, solta-a de vez, descendo os braços pesadamente. Neste momento, todo o seu corpo parecia pesar toneladas. Caiu ajoelhado aos pés da moça que, trêmula, alisava o pescoço. 

Em voz embargada, Lavoisier balbuciava palavras desconexas, que só depois de um tempo Julienne conseguiu entender algo do que ele dizia. 

— Velho maldito... maquiavélico... ele sempre soube, sempre soube... e não fez... nada... pra impedir...! Imutável... imutável... futuro imutável? Só o passado é imutável... não o futuro, não o futuro! Por quê? Para quê?! 

Julienne sentia seu coração em cacos ao ver aquele homem - que sempre se mostrou frio, inatingível, às vezes até mesmo cruel - ajoelhado aos seus pés, confuso e desamparado. Esticou titubeante sua mão direita a ele. Estava estressada e temerosa da reação dele. 

As pontas de seus dedos encostaram muito levemente sobre os cabelos negros e escorridos de Lavoisier, mas o leve toque foi o suficiente para despertar o homem de seus devaneios, levantando seu rosto furioso para ela, que recuou a mão, levando-a em segurança junto ao peito, como se o homem à sua frente fosse um cão feroz prestes a estraçalhá-la com dentes afiados. 

Lavoisier percebeu que a moça estava apavorada. Ele, a pouco, quase a estrangulara! Se não fosse pelo roubo das lembranças, ele teria matado Julienne! E no mesmo instante, lembrou-se do que Hanon havia dito nas lembranças dela... “... a senhorita é a única neste mundo que tem a condição de fazer isso por Laurent Lavoisier...” 

Com isso, o homem abrandou sua expressão e toda a sua ira desapareceu. Julienne permanecia estática contra o balcão, acuada, olhando-o intensamente. Surpreendeu-se com o semblante que sucedeu o da ira: um misto de ternura e melancolia. 

— Me perdoe... eu a machuquei... poderia... tê-la... matado! 

— Po-poderia... mas não o fez... 

Lavoisier baixou novamente a cabeça. Por um instante quase infinito, o silêncio reinou absoluto naquele salão, até ser quebrado pela voz cansada do Revolucionário. 

— Muitas coisas... eu poderia ter feito ou ter deixado de fazer... e não fiz nem uma e nem outra quando necessário... Dominique está morto... morto por minhas próprias mãos! E isso em nada acrescentou para a derrubada do líder do Exército Negro! 

— Não... não ainda... mas conseguiremos... você não pode desistir agora, Laur... – Julienne não se permitiu completar o nome de Lavoisier. Era assustador verbalizar aquele nome pelo qual sempre quis chamar o Mestre Magista. Ainda estava em dúvidas se o que fez, a “armadilha” que preparou para atraí-lo até ela, foi uma coisa sensata. Como queria poder abraçá-lo e tirá-lo de vez daquela treva que o envolvia tão forte e densamente! 

Sem voltar-se para Julienne, Lavoisier deu uma risada baixa e voltou a falar, ainda olhando para o chão: — Sempre desconfiei que a senhorita não tinha o juízo em seu devido lugar... uma mente tão brilhante se perdendo com inutilidades! Desperdiçando seu tempo e até mesmo arriscando sua vida por amigos deploráveis! 

Voltou-se para a mulher, a encarando. Ela permanecia quieta e somente sua respiração pesada indicava que não petrificara. Com um meio sorriso, a princípio zombeteiro, Lavoisier continuou a falar, até o sorriso se desmanchar pela melancolia.

Continua... 

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