The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

As imagens de tudo que via eram opacas e desfocadas. O grande corredor principal, que da entrada da fortaleza levava para os diversos ambientes, estava adornado por longas faixas de seda branca e estrelinhas que tremeluziam alternadamente. Lavoisier olhou para todos os lados até decidir seguir em frente, rumo ao salão principal. 

Durante seu curto trajeto, cruzou com formas fantasmagóricas de ex-postulantes. Passavam pelo Mestre Magista sem darem conta da presença dele, continuando com os sussurros e risadas. Viu a esposa de Dominique, Renè Hanon, sair em seu passo apressado e firme do salão de refeições, passando por Lavoisier, igualmente ignorando a presença dele. 

Logo chegou ao salão principal, que estava ornado com faixas e laços de seda branca, festões de cristais, luzinhas que se movimentavam, acendendo e apagando, como fossem pequenos vagalumes. A dúzia de mesas dos postulantes estava coberta por toalhas também em seda branca, com esmerosos bordados em fios de prata. Sobre elas, havia poucos aparelhos de jantar, mas todos de belos desenhos. Sabendo que não era percebido naquele cenário, que era apenas uma mera lembrança, deteve-se a observar a mesa onde estava Julienne, travando animada conversa com outros colegas. Deteve sua atenção especialmente a ela e percebeu que de tempo em tempo ela parecia se distanciar da animada conversa, tornando-se apática, esguelhando seu olhar, muito discretamente, para a mesa principal, a dos Mestres e Oficiais. 

Por curiosidade, Lavoisier resolveu acompanhar o olhar da postulante e encontrou a si mesmo, na forma fantasmagórica da lembrança, sentado em seu lugar de costume à mesa principal, dedicando, com muita má vontade, atenção ao colóquio entusiasmado do Oficial de Simbologia, tendo-o à sua esquerda. À sua direita encontrava-se, como se estivesse em estado de alfa, a estranha Mestra Brighid: estática, olhando para frente com olhos vazios. Foi então que surgiu a suposição de que, aquele dia retratado naquela lembrança, deveria ser o Reveillon do ano anterior. Pelo que lembrava, nada havia acontecido de anormal ou importante nesse dia. 

Uma risada alta e gutural, seguida por palavras intercaladas, chamou a atenção de Lavoisier, que olhou para trás e viu o belicoso Brito acompanhado do esquelético Denzel, ambos Guardiãs do Forte, entrarem no salão, fazendo grande contraste de suas formas e conversando animadamente como se ambos fossem bons amigos, o que não eram. A situação inusitada só poderia comprovar que ambos já estavam com certa quantidade de álcool correndo nas veias e subindo à cabeça... aliás, nada anormal. 

Foi então que Lavoisier, o visitante da memória, se deu conta de que... se aquele filtro fora feito com base no Plasma Mental de Hanon, como era possível ele estar dentro daquelas lembranças se o próprio dono não estava presente e, desde que desceu ao seu subconsciente, não encontrou o Grão-mestre em nenhum lugar? 

Um calafrio percorreu sua espinha, de cima a baixo. Por mais que tenha estado ao lado de Hanon, e por mais que conhecesse o homem, de fato ele não conhecia toda a extensão do poder de seu antigo Mentor. Por mais que conhecesse Hanon, tudo que podia fazer era supor o quanto ele era poderoso, mas sem ter a real ideia. 

Olhou mais uma vez para Julienne, admirando-a, como não se permitira em qualquer outra época. Aproveitou o momento para estudar atentamente as formas do rosto, tentando descobrir o que ia no coração dela naquele momento. Apesar da conversa animada entre os colegas, a moça deixava escapar ares de preocupação que a fazia, por rápidos instantes, se desligar do mundo ao seu redor. 

Lavoisier suspirou fundo e decidiu sair o quanto antes dali, a fim de descobrir o porquê daquela lembrança, qual o objetivo daquilo. 

Avançou porta fora do salão e seguiu pelo corredor principal. Rumava ao gabinete do Grão-mestre a fim de descobrir algo. Se as lembranças pertenciam a Dominique Hanon, e fora seu Espírito que ordenou Julienne a preparar aquele poderoso hidrólio, algo sério por trás disso havia de ter, e descobrir o quê, era uma obrigação. 

Lavoisier subiu à sala de Mago Branco, e lá ele estava em pé, diante da janela em forma de gota, com os braços cruzados às costas, observando a noite. Alguns fogos de artifício estouravam ao longe, prematuramente. A imagem de Hanon era diferente das demais imagens da lembrança: sua forma era quase completamente definida e as cores eram mais vívidas, menos desbotadas. 

— Se está aqui é porque não caminho mais neste mundo e você foi resgatado, não é mesmo Laurent? 

Lavoisier arregalou os olhos e ficou atento. Karman Memoriale era um hidrólio muito poderoso de Arte Obscura e, ao menos que ele próprio tivesse preparado usando seu próprio Plasma Mental, somente assim poderia prever o que aconteceria com aquele que ingerisse. Mas as memórias eram de Hanon e, mesmo que o filtro tenha sido preparado da forma mais correta possível, o que com certeza foi, o elemento básico, o Plasma Mental, poderia ter sofrido acréscimos e alterações que apenas aquele que o fez saberia. 

— Eu... temo que esteja certo, Dominique. 

Hanon virou-se para Lavoisier, tendo ao rosto seu sorriso confiante. Aproximou-se do rapaz, encorajando-o a falar. 

— Eeh.. eu não entendo, Dominique... esse momento é referente... 

— Ao nosso último Reveillon. – Completou Hanon. 

— Então, por quê... – Lavoisier se alterou um pouco, saindo de seu estado de torpor, gesticulando os braços e movendo-se do lugar. 

— Por quê, se tudo já estava preparado, se você já sabia de tudo que aconteceria, por que não evitou que acontecesse?! 

Hanon permanecia calmo, como era de seu costume. — Por que todos creem que, por se tratar do futuro, este é imutável? O futuro torna-se passado no momento em que este se concretiza, e o passado é imutável. 

— Por Hermes, Dominique! Não me venha com parábolas! Você tinha consciência do que aconteceria e me usou para provocar à sua morte! Poderia ter evitado isso!

— Eu apenas posso lhe dizer que a Srta. Brighid não é tão inútil e tão desprovida de poderes quanto aparenta. 

— Ela previu que eu o assassinaria?! Isso é ainda mais inacreditável! – Ironizou. 

O Mago Branco levantou sua mão destra, espalmando na direção de Lavoisier, pedindo que tivesse calma. — Ela não previu que seria por suas mãos que eu padeceria... neste ponto, eu alterei o nosso futuro e peço-lhe perdão por isso, por ter-lhe dado fardo tão pesado. 

— O quê! Como assim! – Lavoisier estancou e olhou aturdido e desconfiado para Hanon. 

— A Srta. Brighid previu meu suicídio... – Lavoisier tornou-se estático e, como se lesse os pensamentos do jovem, Hanon prosseguiu com a explicação. — Eu me coloquei deliberadamente em perigo ao beber o vinho ervoso, pois precisávamos desesperadamente de nos contatar com os Mestres Dragões no Plano Etéreo, afinal somente eles poderiam nos fornecer as respostas de que tanto precisávamos. Porém, sabia que tanto a ingestão do filtro quanto ao meu desdobramento a um Plano muito superior ao nosso seria letal ao meu corpo... logo, eu cometeria um suicídio. 

Lavoisier andou nervoso pelo gabinete, meneando a cabeça, não querendo acreditar no que ouvia. Hanon esperou por instantes, deixando que o silêncio acalmasse Lavoisier, mas o tempo para o efeito da Karman Memoriale era limitado. 

— Se eu tivesse cometido o suicídio, estaria então em estado de perturbação e não poderia auxiliar as Forças Revolucionárias e ao Grão-mestre Casimiro Arcoverde, pois perderia por tempo indefinido minha razão e livre-arbítrio, e só poderia expiar essa falta com uma nova existência! E, bem, isso levaria muito tempo e creio ser muito mais útil como um Espírito livre do que como um Espírito aturdido esperando nova reencarnação. 

— Então, para evitar este estado de expiação, fez com que eu o matasse, livrando-o assim de ser um Espírito suicida?! – Lavoisier completou o pensamento, dizendo-o de forma sarcástica. — Você é sórdido, Dominique Hanon! 

— Hohoh.. tomarei isso como um elogio, meu querido assecla! 

Mas, para nos empenharmos em algo, precisamos fazer sacrifícios! Eu morreria de qualquer forma e não poderia mais continuar colaborando para a derrubada das Trevas. Peço perdão pelo fardo que o faço carregar com esse ato, mas somente você poderia fazê-lo... tenho certeza de que ganhou muito prestígio ante os olhos do Mago Negro Anthrax. 

— Tenha a absoluta certeza de que sim, Dominique! 

— Já que estamos conversados, quero que pare de se culpar pelo que foi obrigado por mim a fazer. Tudo foi feito pela derrubada das Trevas. Ademais, não me restariam mais muitos anos de vida, se eu tivesse como sobreviver ao envenenamento do filtro ervoso de nossos aliados Elfos. 

— Lamento muito lhe dizer, Dominique... mas isso em nada contribuiu para o enfraquecimento de Anthrax! E ainda por cima as Forças Revolucionárias, Casimiro Arcoverde e o grupo paramilitar dele, o Resistência Autônoma, querem a minha cabeça! 

— Ainda não, meu querido, ainda não... mas, o mal não é eterno e sempre sucumbi à evolução. Quanto aos membros das Forças Revolucionárias e do partido de Arcoverde, o Resistência Autônoma, eu me manifestarei na próxima reunião e contarei todos os fatos, desvendando a verdade sobre a minha morte. Mas, antes, era necessário trazê-lo de volta à superfície. Só lamento que a Srta. Julienne tenha demorado tanto para aceitar seus sentimentos. Agora volte, Laurent! E tenha um Feliz Ano Novo!


Continua... 

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