The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Eu havia sido atingido por aquele feitiço de Magia Negra... quem diria, o fabuloso São Hanon conhecer e usar Magia Negra! Conhecer e USAR uma maldição que nem eu conhecia! Pois é. E gostaria de não ter conhecido desta forma, mas adoraria usá-la contra o maldito Hanon! Da dor aguda, lancinante, à treva total. Acordei um tempo depois, zonzo, com mal-estar. Tudo ainda estava negro, mas minha vista foi se acostumando à penumbra e só então pude entender que estava na enfermaria.

Pensei ter dormido apenas algumas longas horas. Só mais tarde me informaram que dormi por vários dias! Eu precisava dormir, estava esgotado, mas isso já era demais! Se pudesse, ficava outros tantos dias sem pregar os olhos, só pra compensar! O Mestre não devia estar gostando nada disso!

Com dificuldade, me ergui na cama sobre os cotovelos, tentando me pôr sentado. As costas doíam, mas meu peito doía ainda mais. Passei a mão por baixo da blusa e senti uma elevação esquisita sobre minha pele: comprida, em diagonal, que atravessava todo meu tórax, do ombro esquerdo até à costela direita. Aquilo era uma quelóide! Comecei a entrar em pânico e, trêmulo, passei a mão em meu rosto, mas, graças a Hermes, não havia marcas aparentes, pelo menos não ao toque.

Maldito Cayla Hanon, eu vou matá-lo! – Jurei a mim mesmo...

Foi quando algo se mexeu e atraiu meu olhar para uma poltrona próxima à cama aonde eu estava. Vi um amontoado de pano a princípio, até fixar melhor a minha visão. Por sobre o encosto da poltrona, havia cabelos lustrosos espalhados, algumas mechas caiam por sobre o rosto e ombro da garota e só então notei que se tratava de Juliette Willians. Que diabos ela fazia ali?! Devia estar me vigiando para o seu amado São Hanon!

O ódio queimou dentro do meu peito, fazendo a cicatriz arder. Aquela maldita bastarda havia traído a confiança que depositei nela! Ela me entregou para aquele amaldiçoado do Hanon!

Tentei levantar de súbito da cama, queria avançar e estrangular aquela garota maldita, mas meu corpo estava fraco e sem reflexo por causa dos vários dias dormindo. Acabei caindo e fazendo tanto barulho que se podia fazer num ambiente como aquele em plena madrugada. Juliette acordou assustada com o baque seco e saltou da poltrona em minha direção.

—Romero! O que pensa que está fazendo?! Você está ferido, doente, não pode sair levantando assim de qualq...

Não deixei ela terminar de falar. Ela tentava me abraçar para me tirar do chão. A proximidade dela me causou repugnância e usei toda a minha força para empurrá-la para longe de mim. Ela caiu sentada e ficou na mesma posição me olhando atordoada. Usei mais alguma força que restava e, sozinho, me coloquei na cama, sentado. Aquilo me causou uma exaustão terrível e o ódio que sentia por ela me deixava ainda pior. Tentava ao mesmo tempo inspirar grandes quantidades de ar e amaldiçoá-la.

—Sua... maldita! ...Sangue... ruim.. miserável!

Ela se levantou assustada, e veio até a mim. Ela parecia muito preocupada, tanto que sequer me ouviu praguejar. Ela tentava me tocar, me fazer deitar ou sei lá o quê. Estava tão fora de mim, cego pelo ódio, que não dei a mínima para a sua aflição.

—Romero, acalme-se, você pode piorar com isso! Irei chamar a Doutora Feyerie! Você esteve muito temp...

Novamente, não deixei ela terminar. Não sei de onde tirei aquela força, mas agarrei-a pelos cabelos na altura da sua nuca, como se fosse arrancá-los e a fiz ajoelhar-se pela dor. A nossa sorte – minha, principalmente - é que eu não estava com meu Bastão Magístico em mãos, senão a teria matado ali mesmo!

—O que Hanon me fez é culpa sua, bastarda! Você não passa de uma dissimulada, uma cadela falsa e vai morrer como uma! Eu vou matar você e o seu amiguinho Hanon, tenha certeza!

Joguei-a novamente ao chão. Era mesmo uma sorte não ter ali meu Bastão e nem mais força suficiente para qualquer coisa. Ela estava chorando, chorando muito, mas eu burro, cego, imbecil, não entendi que ela chorava por mim! Achei que ela chorava pela dor que a causei.

—Não, Romero! Eu não fiz isso! Jamais falei qualquer coisa pra Cayla! Eu não sei como ele o descobriu no jardim, ele...

—CALE A BOCA, SUA DESGRAÇADA! VOCÊ E HANON VÃO PAGAR MUITO CARO POR ISSO!

Ela não conseguiu responder mais nada. Até hoje, sinto uma compressão dolorosa no coração pela lembrança daquele olhar de mágoa e desilusão. Ela se levantou aos tropeços e saiu dali correndo. Minha respiração estava alterada, o coração pulsava tão forte que me doía as costelas. Levei a mão ao peito, baixando a cabeça, então vi o lençol que estava embolado sobre mim se manchar pelas minhas lágrimas que caiam sem eu perceber. Porém, não fiquei muito tempo sozinho. Logo ouvi passos rápidos vindos em minha direção e uma pessoa de vestes brancas surgiu a minha frente: era Doutora Feyerie - e parecia irritada!

—Sr. Malakian! O que aconteceu afinal?! A Srta. Willians saiu às pressas da enfermaria e parecia que estava chorando!

Enquanto ela me fazia as perguntas, também me examinava. Sequer se preocupou se eu daria as respostas ou não, e me trouxe logo uma poção medicinal com gosto de lodo para tomar.

—Por Cipriano, Sr Malakian! Esteve muito doente por vários dias e quando acorda já fica alterado desta forma?! Se continuar assim, terá de ser internado em St. Germain! Vamos, tome isto e durma!

Dormir? Eu não queria dormir! Queria encontrar Willians e terminar o que comecei! Mas a Curandeira me obrigou a tomar aquela poção horrível e cai instantaneamente em sono profundo.

Acordei na manhã seguinte e já não havia mais o mal-estar de antes. Estava muito calmo e descansado, como se tivesse tido um sono muito reconfortante. Então, pela primeira vez, notei como era diferente e luminosa uma manhã ensolarada. Por viver na Torre Norte, que ficava contra a montanha de granito, nunca acordei sob a luz natural do dia. Levantei-me e sentei na cama. Fui, aos poucos, revivendo tudo que tinha acontecido até então.

E senti uma tristeza profunda, uma dor amarga quando me lembrei do ocorrido com Juliette, na madrugada.

Eu deveria odiá-la. Mas onde estava todo aquele ódio? Apenas sentia uma amargura estranha, como nunca havia sentido.

—Sr. Malakian, que bom que acordou! Sente-se bem? – Me perguntava uma alegre Doutora Feyerie, que me surpreendeu.

Fiquei observando, estranhando a Curandeira, até que me dei conta que ela esperava por uma resposta.

—Eu... eu me sinto bem melhor, mais disposto.. e não sinto tanta dor.

—Huuum, isso é bom. O senhor sabe o que lhe aconteceu?

—Só sei que foi Hanon quem me atacou. O que aconteceu mesmo eu não sei.

—Então converse mais tarde com o Patrono de sua Casta, Sr. Malakian... e beba isto.

Era mais uma poção horrível, desta vez com gosto de lesmas! Quando terminei de beber e esperar para ver se ela não voltava do meu estômago, Doutora Feyerie voltou à pergunta da noite anterior:

—O que aconteceu esta noite, Sr. Malakian? O que você fez a Srta. Willians, pra ela sair daqui daquela forma?

A raiva voltou ao meu peito, queimando. Olhei de forma fatal praquela Curandeira intrometida, mas não surtiu qualquer efeito. Ela não se intimidou e continuou a esperar pela resposta.

—Aquela.. Ígneana... (conti meus impulsos, claro!)... ela e Hanon armaram pra cima de mim e estava aqui me vigiando pra ele!

A Curandeira me olhou com desaprovação e meneou a cabeça em negativa.

—A Srta. Willians esteve todo o tempo aqui na enfermaria ao seu lado, Sr. Malakian. Até mesmo me ajudou no preparo de poções e no cuidado de seus ferimentos. Passou noites inteiras aqui zelando seu sono, me auxiliando...

Meu peito gelou por dentro. Meu coração parou. Mas, decerto, talvez fosse apenas remorso, talvez ela não tivesse previsto o estrago que foi feito.

—Mandarei que serviçais tragam seu café da manhã até aqui. O senhor precisa de muitas proteínas e carboidratos para repor o que perdeu em sua convalescença.

—Espere um pouco! – Chamei a Curandeira, quase gritando, e o olhar que ela me dirigiu me deu arrepios! Mas prossegui assim mesmo: —Como a senhora pode permitir que uma simples aluna lhe ajudasse com um doente? Ela poderia ter piorado a minha situação!

A velha Curandeira não gostou nem um pouco do que eu disse e no tom que eu falei, mas sentiu prazer em me responder, decerto achando que aquilo me humilharia! Na verdade, o que ela me disse me despertou um ódio ainda maior, só que desta vez por mim mesmo. É uma pena que arrependimento não mata!

—Talvez o senhor ignore isso, mas a Srta. Willians não é uma aluna qualquer. A ajuda dela foi muito gratificante, feita com muita boa vontade e dedicação. Se outras pessoas fizessem por seus entes queridos que adoecem o que ela fez pelo senhor, não haveria tantas pessoas nos hospitais. Como médica, posso tratar suas feridas e dar-lhe remédios, mas apenas a dedicação e carinho de alguém que ama pode curar muito antes do previsto. Se não fosse pela Srta. Willians, Sr. Malakian, o senhor ainda estava em estado de choque!

Doutora Feyerie não ficou para ouvir alguma resposta ou ver minha reação. Girou em seus calcanhares e me deixou ali, naquele leito, estupefato, transtornado, confuso. Minha parte trevosa me dizia que aquilo era só balela, mas havia outra voz que me gritava de que aquilo era mesmo real e estava acontecendo... de que Juliette só não tinha culpa alguma com o que me aconteceu como também... me amava! Cai deitado na cama e levei a mão a minha testa em desespero.
 
Continua...
 
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

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