The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Ilustração by Suzanne Pelt

Capítulo I
P
or mais aparentemente adiantada seja uma civilização, ela sempre esbarrará com as chagas humanas do Orgulho e seus filhos diletos: a Arrogância, a Insensatez, a Vaidade, a Prepotência, a Estupidez. E, por mais evoluído seja um povo, sempre haverá aqueles indivíduos de grande capacidade mental e baixa qualidade moral, e estes não medirão esforços para conseguir o que desejam, nem que para isso tenham que usar todos os seus dons e qualidades para pisar, destroçar, destruir.
E a Ganância de um único Ser muito poderoso faz com que uma guerra seja deflagrada.
Há um mundo fantástico com o qual nós dividimos nosso planeta. Neste mundo, todas as lendas e suas criaturas existem, andam, respiram, amam e odeiam como nós. Abençoados ou malditos, a verdade é que algumas pessoas nascem com dons que nós apenas imaginamos e lemos nos contos de fadas – ou histórias de terror. E este mundo fantástico, incógnito e contíguo ao nosso, vive uma época conturbada, uma guerra fria entre facções. De um lado, um grupo de feiticeiros que não aceitam a condição de viver escondidos dos “Inconscientes” (que somos nós, os pobres deficientes de Magia) e querem governar não apenas o seu “Mundo Magnífico”, mas também o nosso “Mundo Incônscio” (como eles o chamam), e fazer-nos seus escravos ou apenas defuntos. E, do outro lado, está o grupo que lidera tal mundo e não tem nenhum interesse de que nós saibamos de sua existência, acreditando que tudo está muito bom desse jeito.
Dessa Facção, há um subgrupo, o Resistência Autônoma, que se mantém oculto nas sombras do conhecimento geral, agindo na clandestinidade, sempre de tocaia, surpreendendo a Facção opositora autodenominada Exército Negro, liderado por Anthrax, um Mago Negro extremamente poderoso e profundo conhecedor das Artes Obscuras.
As reuniões do Resistência Autônoma estavam se tornando cada vez mais constantes à medida que a Guerra Fria se aquecia, com ataques terroristas contra os Inconscientes e suas cidades, sabotagens no meio social do Mundo Magnífico e, até mesmo, atentados contra feiticeiros, principalmente àqueles que têm o sangue diluído com outras raças, inclusive as dos Inconscientes.
Todos estavam quietos, taciturnos. Um dos integrantes do grupo era um “Yagi” (um agente-duplo) e ele trouxe a notícia de que uma emboscada estava sendo preparada para o grupo. O Yagi era Anderson Hardock Lobo, feiticeiro poderoso, conhecedor das Artes Obscuras e espião do Resistência Autônoma, infiltrado no Exército Negro.
—  ... eles estão cada vez mais ousados. Não pretendem mais se manter escondidos. Muitos Soldados já estão infiltrados entre os Inconscientes e os nossos cidadãos. A intenção deles é nos pegar desprevenidos, de guarda baixa, em momentos que menos esperarmos. – Falou Hardock, em sua voz mansa e grave. Seguiu-se um silêncio mórbido, quebrado apenas pelo crepitar as achas da lareira.
Eles querem causar pânico, é isso? Armar ataques em plena luz do dia, em pleno centro comercial? – Evangelina se pronunciou depois do silêncio que parecia durar uma eternidade, trêmula pelo esforço em conter a sua raiva e indignação.
Exatamente, Srta. Dracena... – Hardock respondeu, erguendo os olhos de azul enegrecido.
Evangelina fechou ainda mais forte as mãos em punho, ferindo as palmas com suas unhas longas. Ela era uma feiticeira poderosa, apesar do seu sangue diluído, e por isso era um dos principais alvos do Exército Negro, que prezava além de tudo a pureza de linhagem.
Você compreende bem o que isso significa, Vangel?! - Thomas  Dobermann encarava a amiga com uma fúria mal contida nos olhos.
Compreendo bem o quê, exatamente, Tom? – Falou arrastado, contendo-se de sua raiva, o que deixou o rapaz ainda mais furioso.
Juliano está certo! Tantas horas sobre livros e trancafiada em bibliotecas finalmente estão surtindo efeito em você! O seu cérebro está derretendo! Será que você não consegue perceber a gravidade da situação, Vangel?! - Thomas termina quase num grito.
Todos prestavam atenção à discussão dos dois amigos, esperando que suas preocupações fossem assimiladas por Thomas e este fizesse com que a ideia de perigo iminente entrasse na cabeça de Evangelina. Não eram apenas Juliano e Thomas que acreditavam que a moça se arriscava demais em levar uma vida normal, como se nada demais estivesse acontecendo. Ela era um dos membros do Resistência e alguém muito ligado a Thomas Dobermann e Casimiro Arcoverde. Entretanto, essa preocupação não pesava na mesma proporção aos membros mais antigos, principalmente a Arcoverde, que confiava plenamente nas convicções da moça e sabia que a missão dela seria de extrema importância e de muita valia quando chegasse a hora de agir. E Lobo parecia se divertir com o contraste da fúria de Thomas com o autocontrole de Evangelina.
— É claro que percebi a gravidade do problema. E, francamente, é uma ideia ridícula! Parece historinha de filme de sessão da tarde. Não acredito que estamos travando uma guerra há mais de cinco anos contra seres com esse raciocínio! - Evangelina estava sarcástica e intolerante. Esse tipo de coisinha a tirava do sério!
— Vangel! Acorda! Você pode ser raptada a qualquer momento! Um Soldado pode agarrá-la enquanto você caminha tranquilamente para suas aulinhas na universidade dos Inconscientes! - Juliano estava tão rubro quanto seus cabelos.
— Que horror vocês dois! O que querem que eu faça? Encolha-me num canto escondido e espere que a guerra termine?! Se eu fizer isso, para mim a guerra já terá sido vencida por eles! Deixar de viver, sucumbindo a um tolo terrorismo psicológico é pior do que morrer!
— Diz isso porque não é você que seria culpada por qualquer coisa ruim que te acontecesse... - Thomas encarava a moça, mas agora com um tom ameno na voz, como se suas energias estivessem se exaurindo. Se acontecer algo a você, a culpa será minha! É a mim que eles querem chegar! Será a minha culpa, da mesma forma que foi a morte de nossos outros amigos! Por ter deixado Rômulo, o braço direito de Anthrax, escapar naquela noite; por ter posto todos vocês em perigo; por você ter quase morrido no ano passado quando um dos Soldados lançou aquela maldição silenciosa! Você estaria morta hoje se aquele maldito tivesse conseguido externar a voz! E isso é minha culpa!
Um silêncio constrangedor dominou a grande sala. Parecia ter  se passado horas até Evangelina quebrar aquele silêncio com sua voz doce e tranquila.
—  Thomas... você tem que parar de se culpar por tudo. O único e exclusivo culpado de tudo isso é Anthrax. - Aproximou-se de Thomas, segurando docemente o rosto dele para que a encarasse. Ninguém aqui é ingênuo. Todos têm perfeita consciência dos riscos que correm, inclusive eu. Tenha certeza de que seria muito mais fácil eu largar tudo isso e tocar minha vidinha sem me preocupar com guerra ou o que quer que seja. Eu conheço os riscos e estou pronta para eles... e não é de hoje!
Evangelina desvencilhou-se de Thomas e foi em direção à mesa da sala, em busca de sua bolsa e livros.
—  Bom... não sei quanto a vocês, mas preciso ir. Amanhã terei um dia longo pela frente. Terei que ir ao Corredor Cultural comprar uns livros, antes de ir pra faculdade ver meus horários e buscar a relação do material de Química.
—  A senhorita não gostaria de pernoitar aqui mesmo, Evangelina? - Arcoverde lhe dirigiu a palavra, e seus olhos demonstravam a confiança que tinha por ela. É mais fácil ir ao Corredor Cultural daqui e algum membro poderia fazer-lhe companhia.
—  Não, professor Arcoverde. Obrigada pelo convite, mas realmente preciso ir. - Virava-se para Thomas e Juliano, que a olhavam cruciante. Omega pode ser um gato mágico, mas precisa se alimentar também. O pobrezinho deve estar faminto!
—  Então Juliano e eu iremos com você e passaremos a noite em sua casa! - Thomas se prontificou.
—  Mas é claro que não! Sou uma moça solteira que mora sozinha! O que está pensando, afinal? - Evangelina respondia divertida, e sorriu largamente ao ver os rostos dos dois amigos se enrubescerem. Minha casa é tão segura quanto à de qualquer membro do Resistência, está protegida por feitiços e irei me teletransportar para lá! Não-há-perigo! Não-há-problema! - Evangelina pendura sua bolsa no ombro e abraça seus livros, enquanto se despede antes de teletransportar.
Juliano e Thomas ficaram inconsoláveis. Não conseguiam aceitar o fato de Evangelina nunca se abalar com nada, parecendo uma cabeça-oca sem noção de perigo. Os outros membros mais jovens voltaram a conversar enquanto outros também se teletransportam. Fox dá risadinhas fazendo sinal negativo com a cabeça, enquanto Lobo abafa uma risada mais calorosa, porém sarcástica. Arcoverde apenas observa com olhar divertido.
—  Essa menina é um caso sério! - Exclama Ramon Fox, entre uma risadinha e outra.
Ela realmente sabe o que faz. Não precisamos nos preocupar com ela... não em demasia. - Arcoverde sorria enquanto respondia a Fox.
—  Exatamente - dizia Lobo em resposta a Arcoverde, e dirigia seu olhar faiscante em direção a Juliano e Thomas.  Não é com ela que devemos nos preocupar... só com os tolos!
Thomas sente o sangue ferver e tenta se controlar para não voar no pescoço de Lobo.
—  Qual é a tua, Lobo? O que está querendo dizer, afinal?!
—  Que apenas os tolos se deixam levar pelas emoções e não conseguem manter a frieza necessária! Se a metade dos membros do Resistência Autônoma tivesse o mesmo temperamento ponderado da Srta. Dracena, essa guerra já teria se findado há tempos!
Thomas e Juliano pensaram em retrucar, mas estavam em estado de choque por ouvir um elogio a Evangelina proferido por Lobo!!
—  Casimiro, também vou embora. Há muito o que fazer agora que o ano letivo está para começar.
—  Claro, Anderson. Amanhã nos veremos no Instituto Hermes Trismegistus.

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